"Sim, senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam. Prosterno-me diante delas. Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as. Amo tanto as palavras. As inesperadas." P. Neruda.




terça-feira, 14 de maio de 2013

Do possível




a busca do impossível

saciada numa esquina:

enquanto encontros prováveis,


amores acontecíveis.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Letra






Você me obriga a escrever. Antes porque faz queimar meu peito, porque me torna afoita, porque suscita em mim sentimentos que ecoam. Reverbera agora em minha pele teu toque felino, teu aperto firme, teu abraço denso. Você me obriga a escrever porque letra por letra, me arranca adjetivos, os mais ternos e carinhosos. Os mais lascivos também. Gosto do teu olhar por perto, do teu calor pulsante, da tua leveza incontida. Teu abraço me enleva, me guia por onde antes eu não arriscaria; eu, que agora arrisco tudo. Eu que pensei que não havia como parar o tempo, muito menos eternizar um sussurro. Choveu e chovia enquanto nosso amor ia alto; noite pequena para tanta existência. Nossas bocas se fundindo como encontro de rio e tempestade, sede, morte e renascença. Você me obriga a escrever. Porque meus dedos procuram teu corpo agora distante, e eletrizados, insistem em tocar as teclas, como se fossem seus músculos, seus pelos. Suas músicas e suas ideias mexeram com minha imaginação e agora eu sou assim, toda enleios. Como frutas e flores e pedras molhadas, tua presença me lembra algo completamente natural e mesmo assim, fenômeno de uma criação maior. Você me obriga a escrever porque me torna, através da sua presença e da sua ausência, bicho inquieto, prisioneira do desejo de traduzir teu nome em cada entrelinha destas linhas que agora brotam do papel antes alvo, vazio e estéril. Você me obriga a escrever para lhe contar das palavras inábeis em descrever o que agora sinto, enquanto te escrevo grande, vermelho e profundo em meu peito, ao lado das mais belas memórias, insensatezes e canções de ninar.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Untouchables






Inocente como eu, você também acreditou na previsão do tempo quando disse que faria frio. Agora sei que você daria uma péssima cartomante: o frio chegou com três dias de atraso e estragou meu modelito. Quiromante de quinta, não me contou tudo que leu, eu sei. Leu entretanto, outras linhas incertas, percorridas em mim: na palma das minhas mãos, na conversa adentrando o adiantado da hora, na pouca distância entre nossos sorrisos. Entre nós.
Sim, a felicidade é fortuita. Espoca em pequenos gestos, em grandes viagens, numa música, num sabor, numa tarde fria de cinza-fosco e bons acontecimentos. Ela espia por entre as frestas do que somos, do que sentimos; ela espreita da somatória insana das nossas decisões tão precisas quanto uma roleta-russa. Felicidade não cabe: aprende-se a dar espaço a ela, para que apareça, para que germine, para que se faça. É assim ou então o medo. O descompasso. O desperdício dos dias, dos risos, do que somos e do que, tão logo, não mais seremos. Felicidade descende de um ato de coragem, de um arroubo, de uma quase insanidade do ponto de vista de quem se fia em probabilidades.
Mas ela não está aqui para provar nada. Não está aqui para isso. Não está nem aí. A felicidade verte mesmo é da nossa falta de cuidado.
O frio que você previu se fez hoje. E pelo jeito fica um tempo. Já a felicidade não sei até quando. Sei que por enquanto, neste canto, permanece.


quinta-feira, 26 de julho de 2012

teu nome





Teu nome tem dado menos as caras por aqui, e só por isso tomei coragem para escrever. É que antes ele me trazia abrigo e ultimamente, vazio e tempestade. E não é que ele tenha ido, mas tem se esvaído por entre estes dias ímpares. Teu nome, antes impregnando o ar de sonoridade em meu peito, tem se tornado um eco cada vez mais distante na minha sonata. Teu nome está nas frestas e na correspondência, mas procura agora se ater ao fundo das cores e das coisas. Eu tenho escondido teu nome tão bem da minha boca, que ela o tem sussurrado e beijado menos. Teu nome tem tocado menos também a minha saliva e seu visco. Teu nome, que já foi urrado pelo meu peito, foi dorso da mão deslizando em teu rosto, cantiga de infância ressonando meus medos. Teu nome tem feito menos companhia aos meus sorrisos, estes que têm aparecido aos poucos, vencendo a murros várias faltas renovadas. A ausência cada vez mais ampla do teu nome tem explorado a casa, os lugares conhecidos, a mesa posta para um. Pode parecer loucura tentar desdizer teu nome dizendo tanto sobre ele, como agora. Mas você vai me entender: é que teu nome agora machuca menos, e por isto, pode ser escrito. E, embora não pareça, esse não é um excerto sobre o desaparecimento lento do teu nome em minha pele; é sobre a ação do tempo por entre dias sem teu nome, a desaparição de alguns tons, e aurora de outros sons vibrantes em minha língua, que me enchem de esperança, uma mínima apreensão e comedida dose de encanto; me excitam, amedrontam e borbulham, mas que eu ainda não sei como chamar.




segunda-feira, 25 de junho de 2012

vitória ou derrota?





olho o casal de velhinhos no cinema. ela jogando paciência no celular e ele, um jogo de corrida. depois de trocentos anos juntos, nenhum silêncio é desconforto. não há mais necessidade de conversar o tempo todo. há um equilíbrio em cada um jogando seu joguinho, lado a lado, no escuro. paz. depois de um tempo ele para e ajuda ela pacientemente com a paciência. cuidado. me vêm, então, a dúvida de sempre: quando a menina-deliciosa-de-19-anos quis mostrar sua foto de biquíni fio-dental, ele resistiu? ela perdoou? descobriram uma forma de ele não ter que resistir para ela não ter que perdoar? porque depois de tantos anos juntos, com certeza houve pelo menos uma menina-deliciosa-de-19-anos para cada um dos dois… mas qual a importância dela em relação a importância deles? um filme começa e acaba só para trazer mais dúvidas: “Apenas uma noite” lembra que há relações que não acabam só porque queremos que acabem. não acabam com distância, tempo ou cisma. seguem, assim, sem ser o que eram e sem deixar ser o futuro em paz. um meio do caminho. isto talvez tenha muito mais importância do que uma menina-deliciosa-de-19-anos. algo inacabado, inacabável, inabalável. será que os velhinhos saíram de mãos dadas no escuro?





“Precisa-se”





Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

(Clarice Lispector)




terça-feira, 27 de março de 2012

Sincera


Às vezes é preciso
um poema curto
pra deixar o dito
pelo não tido

dizendo tudo.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Matiz




Às margens da cor azul,
verde e amarelo ressonam
roxo esquenta mais do que esfria
meu cobertor de infância
Bege não gosto, cor de lesma,
Marrom é quase preto
E doce é cor e cheiro de abóbora.
A boca é pink maravilha
embora às vezes carmesim,
ruminando impropérios
cor-de-burro-quando-foge.
Pincelando lado a lado
bordas de céu 
no fim da paisagem
sobra um dourado que
só sabe quem já viu
pôr-de-sol em caleidoscópio.
O branco dos sinais de paz
fica bem esvoaçando rendas na janela
e em nada mais. É uma cor cansada.
Laranja! Lá dos pomares
de argila ocre de Padre Nóbrega.
O verde das palmeiras oscila prata e cinza.
Azul sonoro de uma certa baía nipônica.


Longe léguas, distingo bem:
este vento cor de saudade
reflete e dança na cor dos meus olhos.